I
Poeta do não lugar
Que se esconde na indefinição
Vivendo na incerteza
Usa as palavras na folha
Apenas como Deus
As nuvens no céu
Massas disformes
Feitas do nada
Da matéria das sombras
E dos medos
Coisas
Que vivem apenas
Para serem sensações
Provocarem efeitos
Sem nunca terem tido causa
II
Poeta da montanha mágica
Da maior de todas ao longe
E mais pequena ao perto
Aonde só vivem riscos
E pontos de interrogação
Sinais
Que apenas mancham as folhas
Como grãos de chuva
Mancham os telhados
Caem com tanta força
Que quando caem já nada são
Desaparecem
Sem deixar um único resquício
Sem nunca ninguém perguntar
Onde estão
sexta-feira, novembro 20, 2009
sexta-feira, julho 24, 2009
Quando nasce uma criança
Nasce uma flor
Nasce um nome
Uma palavra de pernas para o ar
Quando sorri uma criança
Sorriem a limão os campos
Vêm as andorinhas voar baixinho
Vêm medir o nosso andar
Quando brinca uma criança
É um gatinho que gira, mordisca a sua cauda,
Roda como o peão da nossa infância
Como um relógio de corda
Que dá corda ao mundo
Quando chora uma criança
As nuvens fazem beicinho
As árvores mirram e as folhas tombam
Assim como as lágrimas do rosto menino
da criança
Quando parte uma criança
Acinzenta-se o céu e a natureza
A esperança torna-se areia
E o mundo um deserto
De tristeza
Nasce uma flor
Nasce um nome
Uma palavra de pernas para o ar
Quando sorri uma criança
Sorriem a limão os campos
Vêm as andorinhas voar baixinho
Vêm medir o nosso andar
Quando brinca uma criança
É um gatinho que gira, mordisca a sua cauda,
Roda como o peão da nossa infância
Como um relógio de corda
Que dá corda ao mundo
Quando chora uma criança
As nuvens fazem beicinho
As árvores mirram e as folhas tombam
Assim como as lágrimas do rosto menino
da criança
Quando parte uma criança
Acinzenta-se o céu e a natureza
A esperança torna-se areia
E o mundo um deserto
De tristeza
sexta-feira, junho 12, 2009
Não há louco sem delírio.
Não há utopia sem o sonho.
Não há razão sem a paixão.
Não há Dom Quixote sem Sancho Pança.
Não pode haver poetas sem poesia.
Não pode deixar de haver uma vida que não a queiramos viver.
Não haverá labirinto em que nós não nos queiramos perder.
Não haverá momento que não seja o nosso.
Não ficará vinho na mesa com amigos para o beber!
À tua!
Não há utopia sem o sonho.
Não há razão sem a paixão.
Não há Dom Quixote sem Sancho Pança.
Não pode haver poetas sem poesia.
Não pode deixar de haver uma vida que não a queiramos viver.
Não haverá labirinto em que nós não nos queiramos perder.
Não haverá momento que não seja o nosso.
Não ficará vinho na mesa com amigos para o beber!
À tua!
Porvir
Bailam os sinos na torre do tempo.
Apertam as veias o mecânico coração.
Fabrica-se o homem e o momento –
Uma criança que nasce na palma da mão.
Entortam-se as linhas direitas do destino.
Tecem as moiras o ardiloso novelo,
Que fio a fio fica mais fino,
Mas ninguém consegue rompê-lo.
E já no rio memórias são águas,
Que calmas e agitadas se vão tornar
Quando a barca avernal sobre elas passar.
E assim, num incessante galgar de laudas,
Se folheiam todos os dias da vida
Para escutar a sentença há muito proferida.
Apertam as veias o mecânico coração.
Fabrica-se o homem e o momento –
Uma criança que nasce na palma da mão.
Entortam-se as linhas direitas do destino.
Tecem as moiras o ardiloso novelo,
Que fio a fio fica mais fino,
Mas ninguém consegue rompê-lo.
E já no rio memórias são águas,
Que calmas e agitadas se vão tornar
Quando a barca avernal sobre elas passar.
E assim, num incessante galgar de laudas,
Se folheiam todos os dias da vida
Para escutar a sentença há muito proferida.
sábado, abril 18, 2009
Breve Tratado do Silêncio
Eu, o sonho e o pesadelo, a utopia e o verdadeiro, ordeno silêncio em torno de mim.
Promulgo a lei que fará soar a paz.
E assim se cumpra a minha vontade:
Que se calem os benditos, os bem-aventurados e os felizes.
Que se calem os mestres, os sábios e os sabichões.
Que se calem os bem-sucedidos, os belos e os campeões.
Não quero ouvir um pensamento ou um conselho.
Mesmo que caia no poço do erro, a minha vontade é lá cair.
É errar. Ouviram…
Não quero saber das afirmações ou das certezas.
Mesmo que viva no reino da dúvida e da incerteza;
Mesmo que diga tolices ou mentiras -
Não há mal que daí nasça - é nelas que eu acredito.
Sim, eu sei que muito penso e nada faço.
Mas também nunca desejei fazer nada.
Sim, eu sei que sou o trapo que não se veste.
Mas também não sou peça de arrebique.
Sim, eu sei que não sou ninguém.
Mas quem é que disse que eu queria ser alguém?
Que falso pensarem que quero orientação.
Que não quero ser o que sou.
Que não quero estar aonde estou.
Sabem lá eles que o meu lugar é aonde eles não estão.
É à sombra da minha solidão.
E assim decreto a lei do não escutar.
E dou vivas aos incautos, aos ridículos, aos loucos e aos vagabundos.
Dou vivas aos solitários, aos que não são de companhia, aos que querem a sua própria companhia.
Dou vivas aos que se querem ouvir, aos que não querem escutar, aos que se querem rir, aos que se querem calar.
Dou uma pancada na mesa e termino a sessão.
E boto a baixo o licor
Que nasceu do silêncio e da solidão.
Promulgo a lei que fará soar a paz.
E assim se cumpra a minha vontade:
Que se calem os benditos, os bem-aventurados e os felizes.
Que se calem os mestres, os sábios e os sabichões.
Que se calem os bem-sucedidos, os belos e os campeões.
Não quero ouvir um pensamento ou um conselho.
Mesmo que caia no poço do erro, a minha vontade é lá cair.
É errar. Ouviram…
Não quero saber das afirmações ou das certezas.
Mesmo que viva no reino da dúvida e da incerteza;
Mesmo que diga tolices ou mentiras -
Não há mal que daí nasça - é nelas que eu acredito.
Sim, eu sei que muito penso e nada faço.
Mas também nunca desejei fazer nada.
Sim, eu sei que sou o trapo que não se veste.
Mas também não sou peça de arrebique.
Sim, eu sei que não sou ninguém.
Mas quem é que disse que eu queria ser alguém?
Que falso pensarem que quero orientação.
Que não quero ser o que sou.
Que não quero estar aonde estou.
Sabem lá eles que o meu lugar é aonde eles não estão.
É à sombra da minha solidão.
E assim decreto a lei do não escutar.
E dou vivas aos incautos, aos ridículos, aos loucos e aos vagabundos.
Dou vivas aos solitários, aos que não são de companhia, aos que querem a sua própria companhia.
Dou vivas aos que se querem ouvir, aos que não querem escutar, aos que se querem rir, aos que se querem calar.
Dou uma pancada na mesa e termino a sessão.
E boto a baixo o licor
Que nasceu do silêncio e da solidão.
terça-feira, março 03, 2009
Um saco baloiça ao vento…
Parece cheio e pesado
Mas baloiça
Como se dançasse,
Como se fosse uma criança a brincar.
Mas não é uma criança,
É um saco que baloiça ao vento.
É só um saco.
Um saco pesado e cheio…
Eu admiro-o.
Admiro a plenitude das coisas,
A totalidade…
Está tão cheio que não posso com ele:
Quanto mais penso nele
Mais difícil é puxá-lo para mim.
Até uma criancinha podia com ele…
Mas eu não posso.
Não sou capaz de deixar de pensar nele.
Não sou capaz de deixar de pensar em como
Está cheio.
Cabe nele a medida do mundo,
Das estrelas e do sol.
Cabe nele o infinito, a vida,
O sonho.
Cabe nele a inocência de um sorriso
E a culpa de uma lágrima.
Cabe nele tanta coisa
Que só o vento pode fazer bailar
Um saco assim…
Parece cheio e pesado
Mas baloiça
Como se dançasse,
Como se fosse uma criança a brincar.
Mas não é uma criança,
É um saco que baloiça ao vento.
É só um saco.
Um saco pesado e cheio…
Eu admiro-o.
Admiro a plenitude das coisas,
A totalidade…
Está tão cheio que não posso com ele:
Quanto mais penso nele
Mais difícil é puxá-lo para mim.
Até uma criancinha podia com ele…
Mas eu não posso.
Não sou capaz de deixar de pensar nele.
Não sou capaz de deixar de pensar em como
Está cheio.
Cabe nele a medida do mundo,
Das estrelas e do sol.
Cabe nele o infinito, a vida,
O sonho.
Cabe nele a inocência de um sorriso
E a culpa de uma lágrima.
Cabe nele tanta coisa
Que só o vento pode fazer bailar
Um saco assim…
domingo, janeiro 18, 2009
Alentejo

Canta Alentejo canta
Molha a tua voz nas lágrimas do teu povo
Ergue bem alto o teu canto
Faz dele a bandeira
Que na onda do vento mostra o teu encanto
Canta Alentejo canta
Sussurra as tuas mágoas às estrelas
E as tuas alegrias ao luar
Para que ele desperte o amanhã
Que nasce com o teu cantar
Canta Alentejo canta
Rasga as planícies os vales os montes
O sorriso do teu triste país
Para que no acordar do dia
Cresçam os frutos da tua raiz
Canta Alentejo canta
Canta a revolta dos teus homens
Para que brote da terra a esperança
Que alimente o coração
Dos que não anseiam de ti uma lembrança
Canta Alentejo canta
Canta a desfolhada da tua alma
Na roda da fogueira dos meninos de outrora
Ouvem-se as antigas melodias
Entoadas pelos velhinhos de agora
sábado, novembro 01, 2008
O meu Romance
Quero escrever um romance;
E ser eu todas as personagens.
Quero ser o tempo, o espaço, o suspense;
E ser o leitmotiv de todas as passagens.
Quero ser um hábil prosador.
O moinho que roda a acção.
Quero ter uma pena de condor
Para esboçar o herói e desenhar o vilão.
Quero salivar o ódio do enredo,
E respirar o amor da trama.
Quero fechar o livro em segredo
E tocar o infinito na minha cama.
E ser eu todas as personagens.
Quero ser o tempo, o espaço, o suspense;
E ser o leitmotiv de todas as passagens.
Quero ser um hábil prosador.
O moinho que roda a acção.
Quero ter uma pena de condor
Para esboçar o herói e desenhar o vilão.
Quero salivar o ódio do enredo,
E respirar o amor da trama.
Quero fechar o livro em segredo
E tocar o infinito na minha cama.
terça-feira, setembro 02, 2008
Tempos houve que o quiseram afundar.
Puseram-lhe a âncora e as amarras,
E mandaram-no para o fundo do mar.
Porque não queriam que olhasse o céu,
Acorrentaram-lhe à carne as pedras
Que o imergiram no mar e no seu véu.
Mas eles não sabem que o corpo ao morrer
Levanta o espírito à altura das estrelas,
E transforma a alma num Ser.
sexta-feira, julho 25, 2008
Uma Bica
Sentei-me à porta de um café do Rossio,
Numa tarde soalheira de primavera;
Numa daquelas tardes que passam
Sem se dar conta que passam.
O sol caía sobre as mesas de vidro.
Mas o vento assobiava
E esgueirava-se pelas ruas,
Vinha desaguar à praça.
As pessoas dobravam-se
Pela força da corrente do próprio vento,
Quase que se ajoelhavam
Perante o petrificado Pedro.
O olhar do sol era intenso,
O grito do vento era barulhento,
Mas o empregado ouviu o pedido –
Era uma bica, nem cheia, nem curta,
Nem escaldada, nem fria.
Era uma bica assim – assim –
E lá veio a bica.
Não tinha nata mas tomei-a de um trago só,
Porque é assim que bebo tudo:
Um trago só.
(Nunca penso no que as coisas são,
Somente penso no que elas foram…)
Mas a bica não tinha nata,
E uma bica sem nata,
É um absinto sem álcool,
Quando se bebe não nos fica a estrelar
O céu-da-boca.
Acenei ao empregado para lhe dizer
Que a bica não tinha nata.
Mas quando ele chegou não disse,
Não quis embaraçar quem tirou
Uma bica sem nata.
Porque um café que se preze
Tira uma bica com nata.
Mas ao pensar neste dogma
Enchi o peito
Da mais inquebrável ousadia,
E acenei ao empregado para lhe dizer
Que a bica não tinha nata.
Veio o empregado mas também veio um amigo.
Pedi ao empregado:
Uma cadeira para este amigo, por favor.
Qualquer palavra que se troque com um amigo
Faz esquecer qualquer bica sem nata.
Estica-me, este amigo, três dedos
Para me dar um aperto de mão.
E não me olha nos olhos.
Diz-me que está com pressa,
Que tem que ir.
Tão depressa lhe dei as boas-vindas
Como as boas-idas…
Não lhe disse,
Mas não gosto que não me apertem a mão.
Ora um aperto de mão,
É um aperto de mão.
A força de um aperto de mão é igual
À soma do respeito mais a afeição.
Eu apertei-lhe a mão.
Enfim, resfriou a tarde com o passar da hora.
Acenei ao empregado
Para lhe pedir a conta e um lápis.
Paguei mas deixei um escrito:
Não gosto de uma bica sem nata.
Numa tarde soalheira de primavera;
Numa daquelas tardes que passam
Sem se dar conta que passam.
O sol caía sobre as mesas de vidro.
Mas o vento assobiava
E esgueirava-se pelas ruas,
Vinha desaguar à praça.
As pessoas dobravam-se
Pela força da corrente do próprio vento,
Quase que se ajoelhavam
Perante o petrificado Pedro.
O olhar do sol era intenso,
O grito do vento era barulhento,
Mas o empregado ouviu o pedido –
Era uma bica, nem cheia, nem curta,
Nem escaldada, nem fria.
Era uma bica assim – assim –
E lá veio a bica.
Não tinha nata mas tomei-a de um trago só,
Porque é assim que bebo tudo:
Um trago só.
(Nunca penso no que as coisas são,
Somente penso no que elas foram…)
Mas a bica não tinha nata,
E uma bica sem nata,
É um absinto sem álcool,
Quando se bebe não nos fica a estrelar
O céu-da-boca.
Acenei ao empregado para lhe dizer
Que a bica não tinha nata.
Mas quando ele chegou não disse,
Não quis embaraçar quem tirou
Uma bica sem nata.
Porque um café que se preze
Tira uma bica com nata.
Mas ao pensar neste dogma
Enchi o peito
Da mais inquebrável ousadia,
E acenei ao empregado para lhe dizer
Que a bica não tinha nata.
Veio o empregado mas também veio um amigo.
Pedi ao empregado:
Uma cadeira para este amigo, por favor.
Qualquer palavra que se troque com um amigo
Faz esquecer qualquer bica sem nata.
Estica-me, este amigo, três dedos
Para me dar um aperto de mão.
E não me olha nos olhos.
Diz-me que está com pressa,
Que tem que ir.
Tão depressa lhe dei as boas-vindas
Como as boas-idas…
Não lhe disse,
Mas não gosto que não me apertem a mão.
Ora um aperto de mão,
É um aperto de mão.
A força de um aperto de mão é igual
À soma do respeito mais a afeição.
Eu apertei-lhe a mão.
Enfim, resfriou a tarde com o passar da hora.
Acenei ao empregado
Para lhe pedir a conta e um lápis.
Paguei mas deixei um escrito:
Não gosto de uma bica sem nata.
quarta-feira, julho 09, 2008
"Ecce Homo"

Fecho a porta
A mim mesmo.
A natureza morta
Planto-a no meu leito,
Assim em segredo,
Para que esconda cá dentro o medo
De saber que o que recuso e aceito:
É o cessante germinar de um coração
Imperfeito!
(Já sinto os ossos a quebrarem
E os nervos a secarem.)
Abandono então as ruínas do meu ser
E vejo a minha carne apodrecer.
E eis-me aqui nu e cru,
No mais puro estado natural
Que já findou.
Mas sabedor, agora,
Que a pobre doente planta que murchou
Era, afinal, a mais sã e dura raiz
Que Deus na terra plantou.
segunda-feira, junho 30, 2008
Amanhecer
segunda-feira, junho 16, 2008
Imperfeição
Vem agora à margem da lagoa
Ver na água o céu pintado.
Põe o teu corpo sobre a folha
E vê o teu rosto desenhado.
Vê como o céu te espelha,
Se acaso quiseres encontrar
Em cada letra uma estrela;
E em cada cometa um olhar.
A meia-lua sê tu inteiro.
Sê a palavra e a imagem,
A utopia, o verdadeiro.
Sê toda esta ideal paisagem.
Faz de ti o meu fiel companheiro
E anda comigo nesta viagem.
Ver na água o céu pintado.
Põe o teu corpo sobre a folha
E vê o teu rosto desenhado.
Vê como o céu te espelha,
Se acaso quiseres encontrar
Em cada letra uma estrela;
E em cada cometa um olhar.
A meia-lua sê tu inteiro.
Sê a palavra e a imagem,
A utopia, o verdadeiro.
Sê toda esta ideal paisagem.
Faz de ti o meu fiel companheiro
E anda comigo nesta viagem.
quinta-feira, junho 05, 2008
Isto
Não sou mais coisa que qualquer coisa,
Mas sou a coisa mais coisa que conheço
Pois a coisa que conheço não é coisa –
É uma ideia de uma coisa.
A coisa que sou é um conceito.
E assim digo, sem saber nada,
Que sou um conceito sem conceito;
Um termo sem termo;
Uma palavra sem palavra;
Um pensamento sem pensar;
Uma sensação sem sentir;
Uma vida sem viver
Um ser sem Ser!
Mas sou a coisa mais coisa que conheço
Pois a coisa que conheço não é coisa –
É uma ideia de uma coisa.
A coisa que sou é um conceito.
E assim digo, sem saber nada,
Que sou um conceito sem conceito;
Um termo sem termo;
Uma palavra sem palavra;
Um pensamento sem pensar;
Uma sensação sem sentir;
Uma vida sem viver
Um ser sem Ser!
domingo, maio 25, 2008
O meu amigo Jack Raven

(riahills.blogspot.com)
O Jack Raven é muito meu amigo.
Jack Raven conheceu-me há seis luas atrás,
Mas Jack Raven foi sempre meu amigo,
Ainda o mundo não existia e já o Jack Raven dizia que era
O meu melhor amigo!
(Aliás, eu mesmo não sei quem seria
Se não fossem os seus sábios conselhos;
Se a sabedoria tivesse um rosto
Esse rosto só poderia ser o de Jack Raven.)
O Jack Raven jamais me deixaria ficar mal
Em qualquer disputa ou em qualquer lado.
Porque Jack Raven não é de um lado,
É de todos os lados.
O meu amigo Jack Raven é médico,
Psicólogo, psiquiatra, terapeuta, enfermeiro,
Bombeiro, advogado, politico, piloto de automóveis,
Piloto de aviões, professor e cozinheiro...
O meu amigo Jack Raven nunca me cobrou dinheiro
Para me analisar.
O meu amigo Jack Raven só queria
Algumas gotas da minha poesia.
O Jack Raven e eu
Fomos devotos de todas as festas:
Jack Raven enchia os copos
E eu bebia;
Jack Raven trazia fumos
E eu inalava;
Jack Raven jogava damas
E eu aprendia.
Jack Raven sabia da minha inspiração
E eu o escutava
O meu amigo Jack Raven levou-me ao cais
Da minha vida,
Acenou-me quando eu,
Na barca,
Dele me despedia.
O meu amigo Jack Raven comprou comigo
O meu sonho de ser livre um dia!
sexta-feira, maio 09, 2008
A missa
Abate-se sobre a igreja o meu sorriso
Três raios de sol
Que embatem mesmo na sombra da porta.
Da sombra do vulto o meu reflexo
Dois cometas
Que abrilham os olhos de um pobre ancião.
O fumo do cigarro de um homem é o nevoeiro
Cortado pelo meu olhar vindouro
E esta nuvem de cores levita até ao vitral,
Encolheu-se multiplicou-se para passar
E agora são infinitas gotinhas cada uma com sua cor
Que se precipitam sobre os fiéis.
E cada um canta
Cantam com a minha voz
Olham com os meus olhos
Sorriem com o meu sorriso
Oram com a minha fé
Sentem com o meu coração.
Eis que uma menina pula para o altar
Traz com ela uma coroa
Uma coroa de princesa ela a menina
Que já morde a bolachinha que o padre lhe dera...
Na minha face toca o padre
E agora o padre sou eu
Benzo-me salpico-me
De água benta,
Gotinhas que ora se espalham em mim
Ora humedecem todos os santos e o menino Jesus.
E eu sou todos os santos e o menino Jesus
E o padre os fiéis o altar
Os bancos a igreja o sino
As badaladas,
Que quando soam logo caiem
Inanimadas sobre a calçada sobre o lago de lágrimas
Das nuvens,
E todas elas são o meu rosto
Reflectido no lago.
Mas tudo isto treme
Pela turbulência de uma buzina de automóvel
Que a grande velocidade vem lá,
Passa e molha-me a bengala
A parede o estrado de madeira a sombra o vulto
O cigarro as calças,
Enfurecido grito: Abrandar.
Mas eu não abrando não paro
Conduzo como quiser o automóvel...
Três raios de sol
Que embatem mesmo na sombra da porta.
Da sombra do vulto o meu reflexo
Dois cometas
Que abrilham os olhos de um pobre ancião.
O fumo do cigarro de um homem é o nevoeiro
Cortado pelo meu olhar vindouro
E esta nuvem de cores levita até ao vitral,
Encolheu-se multiplicou-se para passar
E agora são infinitas gotinhas cada uma com sua cor
Que se precipitam sobre os fiéis.
E cada um canta
Cantam com a minha voz
Olham com os meus olhos
Sorriem com o meu sorriso
Oram com a minha fé
Sentem com o meu coração.
Eis que uma menina pula para o altar
Traz com ela uma coroa
Uma coroa de princesa ela a menina
Que já morde a bolachinha que o padre lhe dera...
Na minha face toca o padre
E agora o padre sou eu
Benzo-me salpico-me
De água benta,
Gotinhas que ora se espalham em mim
Ora humedecem todos os santos e o menino Jesus.
E eu sou todos os santos e o menino Jesus
E o padre os fiéis o altar
Os bancos a igreja o sino
As badaladas,
Que quando soam logo caiem
Inanimadas sobre a calçada sobre o lago de lágrimas
Das nuvens,
E todas elas são o meu rosto
Reflectido no lago.
Mas tudo isto treme
Pela turbulência de uma buzina de automóvel
Que a grande velocidade vem lá,
Passa e molha-me a bengala
A parede o estrado de madeira a sombra o vulto
O cigarro as calças,
Enfurecido grito: Abrandar.
Mas eu não abrando não paro
Conduzo como quiser o automóvel...
segunda-feira, abril 21, 2008
Super-Homem
Não tenho uma capa.
Voar também não consigo.
Do mundo conheço o mapa,
Da vida não sei o que digo.
Nada faço que todos não façam,
Nunca faço ideia do que sou.
Nada sei que todos não saibam,
Nunca sei se devo estar aonde estou
Não sou dono de coisa alguma.
Tenho buracos em todas as malhas.
Nada bebo que não seja espuma;
Nada como que não sejam migalhas.
Não tenho nenhum relevo.
Não causo inveja a ninguém.
Não tenho qualquer enlevo,
E nem sei se sou alguém.
Mas quando escrevo
Sou infinito e omnisciente,
Estou em todo lado,
E sou toda a gente...
quinta-feira, março 27, 2008
"Dubito Ergo Sum"
Olho-me no espelho e vejo-me poeta.
E então sinto que sei tudo,
Sinto que sei o que sou,
Sinto que sou um poeta.
Mas quando saio à rua – a realidade abate-se sobre mim –
E percebo que as certezas, que tenho do que sou,
São nenhumas.
Sou um homem entre muitos homens.
Procuro respostas no agitar das árvores,
No chão que piso,
No rosto das meninas que toco,
No sorriso dos velhos a quem cumprimento,
No céu que anseio almejar,
Na vida que me ensurdece,
No espectáculo do mundo que me cega e entorpece.
Tento encontrar-me.
Tento encontrar-me nas rugas de um velho edifício;
Tento, por tudo, encontrar reflexos de mim nas ondas
Que me desgastam como um solitário rochedo.
Procuro escutar ecos da voz que tive
No uivo do vento, que me descobre o rosto
Que não possuo.
Anseio por encontrar resquícios das lágrimas
Que jorrei na calçada molhada da chuva.
Investigo-me na vida,
Sabendo, no entanto, que só encontrarei o que sou
Na morte.
Perco-me nos leitos do pensamento,
Escondendo-me o mais que posso da minha realidade.
E é, então, que cansado me vergo,
E me contento com as coisas,
Que se tornam coisas diante dos meus olhos.
Vejo e não intervenho.
Tento pôr-me de fora mas sou arrastado para dentro;
Através da gargalhada de uma criança
E do riso sincero de um avô.
Tento ser indiferente aos cisnes do lago
Mas não deixo de ouvir o seu chapinhar.
Tento não sentir um abraço de uma avó ao neto
Mas sinto.
Tento não arrastar o olhar para a similitude de dois irmãos
Mas arrasto.
Tento não invejar o beijo encerrado de dois namorados
Mas invejo.
Tento não tactear a realidade do banco que me suporta
Mas não resisto.
Tento não sentir a sempre ingénua suavidade da relva aparadinha na palma da minha mão
Mas não ouso não sentir.
Tento não me encantar pela cor do céu
Mas dou-me completamente.
Tento fugir de tudo isto
Mas não consigo deixar de querer viver tudo isto.
Procuro-me prostrado perante a circularidade do mundo,
Mas não sei se é aí que estou.
Forço a minha mão a não escrever sobre o que serei,
Pois o que sou está no andar
Deste carrossel momentâneo da vida.
E então sinto que sei tudo,
Sinto que sei o que sou,
Sinto que sou um poeta.
Mas quando saio à rua – a realidade abate-se sobre mim –
E percebo que as certezas, que tenho do que sou,
São nenhumas.
Sou um homem entre muitos homens.
Procuro respostas no agitar das árvores,
No chão que piso,
No rosto das meninas que toco,
No sorriso dos velhos a quem cumprimento,
No céu que anseio almejar,
Na vida que me ensurdece,
No espectáculo do mundo que me cega e entorpece.
Tento encontrar-me.
Tento encontrar-me nas rugas de um velho edifício;
Tento, por tudo, encontrar reflexos de mim nas ondas
Que me desgastam como um solitário rochedo.
Procuro escutar ecos da voz que tive
No uivo do vento, que me descobre o rosto
Que não possuo.
Anseio por encontrar resquícios das lágrimas
Que jorrei na calçada molhada da chuva.
Investigo-me na vida,
Sabendo, no entanto, que só encontrarei o que sou
Na morte.
Perco-me nos leitos do pensamento,
Escondendo-me o mais que posso da minha realidade.
E é, então, que cansado me vergo,
E me contento com as coisas,
Que se tornam coisas diante dos meus olhos.
Vejo e não intervenho.
Tento pôr-me de fora mas sou arrastado para dentro;
Através da gargalhada de uma criança
E do riso sincero de um avô.
Tento ser indiferente aos cisnes do lago
Mas não deixo de ouvir o seu chapinhar.
Tento não sentir um abraço de uma avó ao neto
Mas sinto.
Tento não arrastar o olhar para a similitude de dois irmãos
Mas arrasto.
Tento não invejar o beijo encerrado de dois namorados
Mas invejo.
Tento não tactear a realidade do banco que me suporta
Mas não resisto.
Tento não sentir a sempre ingénua suavidade da relva aparadinha na palma da minha mão
Mas não ouso não sentir.
Tento não me encantar pela cor do céu
Mas dou-me completamente.
Tento fugir de tudo isto
Mas não consigo deixar de querer viver tudo isto.
Procuro-me prostrado perante a circularidade do mundo,
Mas não sei se é aí que estou.
Forço a minha mão a não escrever sobre o que serei,
Pois o que sou está no andar
Deste carrossel momentâneo da vida.
quarta-feira, fevereiro 13, 2008
Fada do Coração
Do Monte Verde, do seu cume,
Ouve-se o rugir dos tambores;
Saem de lá, do clarão do lume,
Notas e gemidos de vozes tribais,
Vêm embriagados, loucos e às cores
Desenhar cabeças, braços e patas
Na água da Baía das Gatas.
São Deuses, homens e animais,
Que criam e moldam o teu corpo.
Quando danças, são deles os sinais
Que, embriagados, loucos e às cores,
Saltam do teu dançar ardente e tropo.
E vais abaixo, e a cima vais voltar,
Serpenteando o meu sorriso e olhar.
Na areia branca de S. Vicente,
Foi colhida a doce flor do teu nome,
E plantada no coração demente
Destes olhos embriagados, loucos e às cores,
Que, inquietos e sedentos de fome,
Procuram a tua pele bronzeada,
Os teus cabelos e olhos de fada.
Eis que me avistas perdido no mar
Da minha infinita paixão.
Lanças-me algo para me agarrar:
Sonhos embriagados, loucos e às cores.
E me dás, sorrindo, a tua mão
Para que possamos os dois ser
Uma estrela que nunca se vai perder.
Ouve-se o rugir dos tambores;
Saem de lá, do clarão do lume,
Notas e gemidos de vozes tribais,
Vêm embriagados, loucos e às cores
Desenhar cabeças, braços e patas
Na água da Baía das Gatas.
São Deuses, homens e animais,
Que criam e moldam o teu corpo.
Quando danças, são deles os sinais
Que, embriagados, loucos e às cores,
Saltam do teu dançar ardente e tropo.
E vais abaixo, e a cima vais voltar,
Serpenteando o meu sorriso e olhar.
Na areia branca de S. Vicente,
Foi colhida a doce flor do teu nome,
E plantada no coração demente
Destes olhos embriagados, loucos e às cores,
Que, inquietos e sedentos de fome,
Procuram a tua pele bronzeada,
Os teus cabelos e olhos de fada.
Eis que me avistas perdido no mar
Da minha infinita paixão.
Lanças-me algo para me agarrar:
Sonhos embriagados, loucos e às cores.
E me dás, sorrindo, a tua mão
Para que possamos os dois ser
Uma estrela que nunca se vai perder.
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