segunda-feira, abril 21, 2008

Super-Homem




Não tenho uma capa.
Voar também não consigo.
Do mundo conheço o mapa,
Da vida não sei o que digo.

Nada faço que todos não façam,
Nunca faço ideia do que sou.
Nada sei que todos não saibam,
Nunca sei se devo estar aonde estou

Não sou dono de coisa alguma.
Tenho buracos em todas as malhas.
Nada bebo que não seja espuma;
Nada como que não sejam migalhas.

Não tenho nenhum relevo.
Não causo inveja a ninguém.
Não tenho qualquer enlevo,
E nem sei se sou alguém.

Mas quando escrevo
Sou infinito e omnisciente,
Estou em todo lado,
E sou toda a gente...

quinta-feira, março 27, 2008

"Dubito Ergo Sum"

Olho-me no espelho e vejo-me poeta.
E então sinto que sei tudo,
Sinto que sei o que sou,
Sinto que sou um poeta.
Mas quando saio à rua – a realidade abate-se sobre mim –
E percebo que as certezas, que tenho do que sou,
São nenhumas.
Sou um homem entre muitos homens.

Procuro respostas no agitar das árvores,
No chão que piso,
No rosto das meninas que toco,
No sorriso dos velhos a quem cumprimento,
No céu que anseio almejar,
Na vida que me ensurdece,
No espectáculo do mundo que me cega e entorpece.

Tento encontrar-me.
Tento encontrar-me nas rugas de um velho edifício;
Tento, por tudo, encontrar reflexos de mim nas ondas
Que me desgastam como um solitário rochedo.
Procuro escutar ecos da voz que tive
No uivo do vento, que me descobre o rosto
Que não possuo.
Anseio por encontrar resquícios das lágrimas
Que jorrei na calçada molhada da chuva.

Investigo-me na vida,
Sabendo, no entanto, que só encontrarei o que sou
Na morte.

Perco-me nos leitos do pensamento,
Escondendo-me o mais que posso da minha realidade.
E é, então, que cansado me vergo,
E me contento com as coisas,
Que se tornam coisas diante dos meus olhos.
Vejo e não intervenho.

Tento pôr-me de fora mas sou arrastado para dentro;
Através da gargalhada de uma criança
E do riso sincero de um avô.
Tento ser indiferente aos cisnes do lago
Mas não deixo de ouvir o seu chapinhar.
Tento não sentir um abraço de uma avó ao neto
Mas sinto.
Tento não arrastar o olhar para a similitude de dois irmãos
Mas arrasto.
Tento não invejar o beijo encerrado de dois namorados
Mas invejo.
Tento não tactear a realidade do banco que me suporta
Mas não resisto.
Tento não sentir a sempre ingénua suavidade da relva aparadinha na palma da minha mão
Mas não ouso não sentir.
Tento não me encantar pela cor do céu
Mas dou-me completamente.
Tento fugir de tudo isto
Mas não consigo deixar de querer viver tudo isto.

Procuro-me prostrado perante a circularidade do mundo,
Mas não sei se é aí que estou.
Forço a minha mão a não escrever sobre o que serei,
Pois o que sou está no andar
Deste carrossel momentâneo da vida.

quarta-feira, fevereiro 13, 2008




Fada do Coração

Do Monte Verde, do seu cume,
Ouve-se o rugir dos tambores;
Saem de lá, do clarão do lume,
Notas e gemidos de vozes tribais,
Vêm embriagados, loucos e às cores
Desenhar cabeças, braços e patas
Na água da Baía das Gatas.

São Deuses, homens e animais,
Que criam e moldam o teu corpo.
Quando danças, são deles os sinais
Que, embriagados, loucos e às cores,
Saltam do teu dançar ardente e tropo.
E vais abaixo, e a cima vais voltar,
Serpenteando o meu sorriso e olhar.

Na areia branca de S. Vicente,
Foi colhida a doce flor do teu nome,
E plantada no coração demente
Destes olhos embriagados, loucos e às cores,
Que, inquietos e sedentos de fome,
Procuram a tua pele bronzeada,
Os teus cabelos e olhos de fada.

Eis que me avistas perdido no mar
Da minha infinita paixão.
Lanças-me algo para me agarrar:
Sonhos embriagados, loucos e às cores.
E me dás, sorrindo, a tua mão
Para que possamos os dois ser
Uma estrela que nunca se vai perder.

quarta-feira, janeiro 23, 2008

terça-feira, janeiro 22, 2008

Quem me vê, quem sabe quem sou?
Sombra que se desenha nas ruas
Da cidade do fantasma que sou.
Ando à noite por paredes ocas
Sem me quedar em lugar de nenhum.
Ziguezagueio entre todas as vidas
Sem tocar em corpo algum.
Subo descidas, levito subidas
E salto em telhados de cristal.
Sou o ar e o uivo de vento
Que nasceu da fome do bem e do mal.
Sou a lágrima que jorrou,
Sou ruim sonho, vil pensamento.
Sou tudo o que sei que não sou!

Quem me vê, quem sabe quem sou?

sexta-feira, janeiro 04, 2008

“Tutus est in cute”

(“Interiormente e por baixo da pele”)

O pensamento morreu –
Matei-o eu.
Matei-o quando o passei para a folha.

Pouso a pena.
Pouso a pena em cima da folha,
Em cima do pensamento,
Em cima do poema…
Do bico da pena cai uma lágrima de tinta,
Pondo no ponto final uma virgula:
Como que a pedir-me para não acabar,
Para continuar,
Para não me entregar ao fim.

Mas insisto. E acabo com ele mesmo ali –
Com virgula e tudo
(Outro esperto, outro génio que o ressuscite
Se assim entender)!

Acabo de me rir sozinho.
Nem sei de que rio, mas rio.
Talvez da minha presunção de escritor;
Escrevo umas linhas, uns versos, umas imagens
E auto-intitulo-me de arrumador de palavras,
De escritor, portanto.
Eu? Logo eu que sou um artista!

Acendo um cigarro,
Sugo-lhe o fumo e respiro-o,
Como se não precisasse de oxigénio
Para absolutamente nada;
Como se não precisasse da vida
Para absolutamente nada.
Vejo o cigarro esfumar-se,
Apercebendo-me que a minha vida se esfuma também:
Alguém a acendeu,
Subtraiu-lhe o fumo
E deixou a maldita beata.
Deixou-a
Sem sequer a amarrotar no cinzeiro,
Que é onde todas as beatas devem estar –
No cinzeiro.
(Tão fora do cosmos que eu estou!)

Um daqueles dias que passam –
Sem eu ter, realmente,
Passado por ele:
Hoje, passei por mim.
Passei por mim; cruzei-me comigo
E nem me falei.
Passeava, deambulava pela cidade.
Enamorado, feliz:
Assim estava eu.
Esbocei um esgar de escárnio
Quando olhei para mim.
Julguei-me feliz…
Virei-me costas e continuei a andar,
Até me ter perdido de vista.
Não me queria ver assim:
Feliz, conformado, sábio,
Estúpido.

Esmurro a mesa.
A mesa de pinho que,
Entretanto, me atira para o soalho
A folha com a minha criação;
A folha que cai levemente,
Como se de uma árvore caísse,
Sabendo que está morta, cansada, estéril,
Sem nada para dar ao mundo,
Sem sabedoria alguma para ensinar,
Sem vida.

Caio em mim, repentinamente.
Deixo a cadeira bater com os cascos no soalho.
Assento os pés no chão.
Esbofeteio a má disposição,
Sopro na vela da metafísica e apago-a…
E, como se fosse cravar a eternidade,
Cravo na folha uma assinatura de mim:
Escrevo sob a última palavra o meu nome –
Álvaro Reis.
(E capricho no S para que todos saibam
Que não foi um Reis, foi o Reisssss.)

Debaixo da portada da janela,
Sorri-me um raio de sol –
São horas de dar vida à minha própria vida.
Vou à bacia, e a água que vejo é a de ontem.
Abulicamente obstinado não busco a água de hoje.
Lavo o rosto com a água de ontem.
(Hoje vejo que sempre fiz do ontem o hoje,
Que sempre fiz do passado o presente,
Que sempre fiz com que o futuro nunca se fizesse.)

Empunho a minha lâmina
Como Quixote empunha a sua espada.
E acredito… Sim, eu acredito.
Acredito que desfaço o que me faz de velho
E pareço novo.
Mas quando aclaro o espelho,
Com a minha mão molhada,
E me olho nos olhos,
Vejo que o que é velho,
Não é o que está fora de mim,
É o que está dentro de mim.

Resigno-me, encolho os ombros,
E busco as calças e a camisa
Que a filha da minha lavadeira engomou.
Salto cautelosamente para dentro dos meus
Sapatos pretos.

Procuro a minha pasta preta,
Freneticamente.
Como se andasse à procura de mim,
Mas soubesse desde sempre
Que nunca me ia encontrar ali.
Mas procurava…
Procurava porque sei,
Que apesar de não me ver,
Eu estou ali:
No vazio, no vago,
Na falta de uma coisa que realmente é.

Aos pés da cama está a pasta preta –
Não a vi, não me vi.
Peguei no cinzento guarda-sol;
Pontapeei o vácuo e o infinito,
E saí…
Bati com a porta
E fui à procura de mim…

segunda-feira, novembro 12, 2007


Imagem retirada de:

http://www.megaholidays.com/imag_07/0317_p_4.jpg

Olhar o Oriente

O raio de sol, que alto brilha,
beija a pálida água do lago;
As nuvens loucas, que brincam à roda,
deixam cada uma cair seu bago.

Chapéu de palha e banco de cortiça –
Entre os dois: uma silhueta de mago.
Ao lado: um menino com sorriso de cobiça
pelo peixe que chora um afago.

Desliza pelos braços o peixe,
imergindo nas sete cores do feixe,
que entretanto brotou na água.

Vendo o rosto do menino entristecer,
o mago abrigou-o no colo, sem mágoa -
ensinando-o a pescar para viver.

quinta-feira, outubro 25, 2007

Apresentando-se o cavaleiro




D. Quixote, o poeta,
o guerreiro dos sonhos ou
o nefelibata que não é...
A eternidade


segunda-feira, outubro 15, 2007

Ser Poeta...

Ser poeta...
É sentir e pensar.
É perder e ganhar
sem chegar à meta.
É ser tudo
e querer ser nada.
É falar mas mudo.
É ser pintor,
é ser escultor
e não fazer nada (?)
É ser o que não é,
é não ser o que é.
É chegar aqui e além.
É ser ateu com muita fé.
É lembrar-se quem é
no âmago do esquecimento.
É sentir o que toca
sem saber o que é.
É ser confuso,
é ser recluso,
e só o perceber
quando está a escrever.

quinta-feira, setembro 27, 2007

A ode dos canalhas

Vivem entre nós grandes campeões:
príncipes na sua vida;
juízes da vida alheia;
reis das casas de todos os botões.

Puros seres celestiais;
semideuses do Olimpo terrestre.
Há em todos eles um mestre,
capaz de todas as façanhas geniais.

Em todas as gerações nascem fornalhas
destes heróis da nação.
Terão eles todos a razão,
estes canalhas?

Vivem entre nós grandes campeões:
príncipes na sua vida;
juízes da vida alheia;
reis das casas de todos os botões.

Grandes alpinistas do infinito;
nadam oceanos e mares;
voam. Eles voam pelos ares;
dizem tudo num só grito.

Por eles todos os sinos dobram,
assim como dobram todas as mulheres,
colhendo inúmeras flores -
tantas que nos seus jardins já sobram.

Fazem de nós e nossas falhas:
póstumos mortais de vil coração.
Terão eles todos a razão,
estes canalhas?

Vivem entre nós grandes campeões:
príncipes na sua vida;
juízes da vida alheia;
reis das casas de todos os botões.

Nobres, jamais se dignam a pensar,
pois vivem no reino da felicidade.
Deixando arder a insustentável simplicidade
para os reais filósofos queimar.

E, enredados pelo destino e suas malhas,
os valorosos pensadores pensam - eles pensam!
Terão eles todos a razão,
estes canalhas?

terça-feira, setembro 11, 2007

ADeus avô!

Ah meu querido avô,
que partiste.
Deixaste-me só!
Deixaste-me triste!
Trepaste o cipreste
até ao firmamento.
E, assim, pereceste
num sombrio momento.
A tua voz, o teu abraço,
qualquer teu movimento,
mesmo um simples um passo:
viverá no meu pensamento!
Fecharei os olhos
sempre que te quiser ver.
Mas nunca, nunca
te irei esquecer...

A ti avô

sexta-feira, agosto 17, 2007

Segredo

É no silêncio
da solidão e do pensar,
que vive, em sossego,
o segredo por contar.
É na distância
do Ser ao falar,
que ouvir é ânsia -
ânsia por escutar.
É no querer ao fazer;
no calar ao dizer,
que se esconde o segredo,
que pela cobardia do medo,
do sossego não quer sair:
insistindo em não existir.

segunda-feira, julho 02, 2007

No coração (confusão metafísica)

Na arena do pensamento
combate um homem,
lutando com o alento
dos que nada temem.
O sonho é a armadura;
a espada de tinta;
o Pégaso para a aventura
que no seu escudo se pinta.
E quem a morte tente,
tenta fazer frente
a este guerreiro imortal!
E quem por ele se vê morrer,
saberá que vai renascer
imune ao mal!

sábado, junho 23, 2007

Almas Gémeas


Alma Gémea

Quando me vêm com amor
dá-me vontade de rir...
Falam-me de sentimentos únicos,
de singulares sensações, de pensamentos dominados,
de vidas com um só sentido - Merdas.
(Disparates que nós inventamos,
coisas estúpidas que nós criamos.)

Dizem-me que somos um para o outro,
Almas Gémeas, portanto.
E depois vem o beijo.
(Oh, o beijo que toca a alma, que afaga a alma,
que nos faz sonhar, que nos sobe ao Nirvana...)

Quando encontramos a nossa Alma Gémea:
olhamos, e ela, a Alma Gémea, olha também, Claro!
Falamos, saímos, cruzamo-nos e dizemos:
- És a minha Alma Gémea. E depois vomitamo-la...

Saímos de casa em busca da Alma Gémea,
encontramo-la
-Não a mesma, outra ainda mais Gémea que a anterior.
Expressamos-lhe o eterno amor. Ela, a Alma Gémea,
expressa o dela, Claro!
(Oh, o amor. O sentimento que move fronteiras,
que não conhece limites, que não se finda...)

Saímos de casa em busca da Alma Gémea,
encontramo-la
-Não a mesma. Outra ainda mais Gémea que a anterior.
E quando os nossos lábios se unem, pensamos:
- É ela, a Alma Gémea.

Saímos de casa para encontrar uma flor
para dar à Alma Gémea.
Mas eis que a vemos, a Alma Gémea
-não a mesma, outra ainda mais Gémea que a anterior...

sexta-feira, junho 08, 2007

O Beijo

Recôndita sinestesia
em recontro púrpura e encarnado –
o Beijo que amanhecia
o fogo invisível fadado.
Mão que o ombro padecia;
olhar à alma apontado:
corpos a quem Eros prometia
o fogo invisível fadado.
Sensações, sentimentos:
anseiam por nascer.
São sonhos, pensamentos
que depressa deixam de Ser,
quando o beijo, por momentos,
insiste em querer morrer.

(Texto baseado na fotografia o beijo, de Doisneau)

terça-feira, maio 15, 2007

sábado, maio 12, 2007

In

I

Trago pensamentos;
horizontes insustentáveis.
Crio sentimentos;
sensações inalienáveis.

Sussuro filosofias,
teses, juízos, poemas,
técnicas, sistemas,
opiniões e atrofias...

Esboço sorrisos e olhares;
desenho gestos, idiossincrasias;
imito caretas e esgares;
invento curas e patologias.
(...)